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A Mesma e Todas — das cavernas ao futuro teórico.

~30mil anos em 53 retratos

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30.000 a.C.

Minha primeira 3x4. Zero filtro. Zero ring light. Só fogueira, ocre no rosto e um colar de dentes que eu mesma providenciei.

Skincare? Gordura animal. Maquiagem? Terra e carvão. Look? Pele de mamute. Pinterest? Parede de caverna.

A Serra da Capivara que um dia seria meu feed.

2.500 a.C.

Upgrade considerável. Saí da caverna, inventei a cidade, a escrita e de quebra a cerveja. De nada, humanidade.

Endereço? Entre o Tigre e o Eufrates. Look? Ouro, lápis-lazúli e um colar que faria a Rainha Puabi chorar de inveja. Ou não, porque copiei dela.

Primeira civilização com burocracia. Já tinha documento, já tinha fila.

1.300 a.C.

Esse cocar tem nome: nemes. Essa cobra na testa? Uraeus, símbolo de proteção divina. Esse colar? Usekh, feito de ouro, lápis-lazúli e cornalina.

Vizinhas? As pirâmides, que nessa época já tinham mil anos. Bichinho de estimação? Um gato. Mas não era fofo, era sagrado.

Hieróglifo era meu stories. Só quem sabe, lê.

400 a.C.

Inventaram a democracia. Mas eu não podia votar.

Inventaram a filosofia. Mas eu não podia frequentar a ágora. Inventaram as Olimpíadas. Mas eu não podia competir. Inventaram o teatro. Mas os papéis femininos eram feitos por homens.

40 a.C.

Falam da minha beleza. Pouco falam que eu falava nove idiomas, governava um império e era a primeira da minha dinastia a aprender egípcio.

Grega de sangue. Egípcia de coração. Política por natureza.

Dois dos homens mais poderosos de Roma se apaixonaram. Coincidência? Estratégia.

Cleópatra VII. A última faraó.

100 d.C.

Grega não podia votar, nem competir, nem opinar. Romana? Eu tinha propriedade, negócio e direito ao divórcio. Upgrade civilizatório.

O Coliseu era novo. As estradas iam até onde a vista alcançava. E o banho público? Meu spa, meu networking e minha fofoca, tudo no mesmo lugar.

Vinho? Diluído em água. Puro era coisa de bárbaro.

500 d.C.

Roma caiu. Eu não.

Enquanto a Europa mergulhava na escuridão, Constantinopla brilhava. Literalmente. Ouro nos mosaicos, ouro nas roupas, ouro no teto. Se não brilhava, não era bizantino.

A cor púrpura? Só a realeza podia usar. O preço? Milhares de caramujos marinhos para tingir um único vestido. Moda sustentável não era.

900 d.C.

Enquanto a Europa trancava as portas, eu abria o mar.

Meu GPS? As estrelas. Meu navio? O drakkar, que chegava antes do medo. Meu penteado? Tranças que aguentavam tempestade no Atlântico Norte.

E não: não usávamos chifre no capacete. Isso foi invenção da ópera, mil anos depois.

700 d.C.

Papel? Inventamos. Pólvora? Também. Seda? Segredo de estado, quem contasse como era feita, morria.

Minha cidade, Chang’an, tinha um milhão de habitantes. A maior do mundo. Londres? Ainda era vilarejo.

E a imperatriz Wu Zetian acabou de provar que mulher governa sim. Única mulher imperatriz da história da China. Mandou tão bem que incomodou por séculos.

1.000 d.C.

Enquanto a Europa construía castelos, eu já morava no maior patrimônio do planeta. Sem escritura, sem cerca. Só a floresta, o rio e um acordo com Omama de cuidar de tudo isso.

Look? Urucum no rosto, sementes no pescoço e um corte que vocês vão chamar de “tigela” mil anos depois.

Meu povo Yanomami está aqui há mais de mil anos. E pretende ficar.

1.150

Compositora, escritora, cientista, farmacêutica, mística e abadessa. Tudo isso no século XII. Sem universidade, sem LinkedIn, sem TEDx.

Enquanto me diziam para rezar em silêncio, eu compunha músicas sacras, desenhava o cosmos e catalogava plantas medicinais. Obediência? Só a Deus. E olhe lá.

Hildegarda de Bingen. A mulher mais multitarefa da Idade Média.

1.200

Meu marido foi para as Cruzadas e levou a espada. Eu fiquei com o feudo, os servos, as contas e as decisões. Quem mandava de verdade? Sem comentários.

Lá fora estão construindo a Notre-Dame. Vai levar mais umas décadas. Paciência medieval era outra coisa.

1429

17 anos. Camponesa. Analfabeta. No meio da Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra, ouvi vozes de São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida me dizendo para salvar a França.

E eu fui. Convenci o Dauphin Carlos — que ainda nem tinha sido coroado rei — a me dar um exército. Tente fazer isso no seu estágio.

Libertei a cidade de Orléans do cerco inglês. Levei Carlos até Reims para ser coroado rei de verdade.

Vesti armadura num mundo que queria me ver de vestido.

Me queimaram por heresia aos 19. Me fizeram santa 489 anos depois. Como sempre, o reconhecimento veio com atraso.

1500

Leonardo acabou de voltar para Florença e já tá desenhando máquinas voadoras no caderno. Michelangelo tá esculpindo um Davi de 5 metros num bloco de mármore que ninguém mais queria. E Botticelli nos convenceu que nascer de uma concha é arte.

Florença ferve. Banqueiros, artistas e papas disputam quem banca o próximo gênio. Aqui, talento sem mecenas não vai a lugar nenhum, tipo alguns artistas sem algoritmo em 2026 🫣.

Redescobriram os gregos e os romanos e depois chamaram de “Renascimento”.

1580

Meu pai cortou a cabeça da minha mãe. Depois me declarou ilegítima. Minha irmã me trancou na Torre de Londres. Depois eu virei rainha. Família real é complicado.

Meio mundo me pediu em casamento. Recusei todos. Cada “quem sabe” meu durava anos e mantinha reinos inteiros em suspense. Chamaram isso de política. Eu chamava de estratégia.

Falo latim, grego, francês, italiano e espanhol. E em 1588 vai chegar uma Armada Espanhola que eu vou mandar para o fundo do mar. Mas isso é spoiler.

A “Rainha Virgem”? Virgem de marido. Não de poder.

1600

Do lado de fora, samurais decidem o futuro do Japão na batalha de Sekigahara. Do lado de dentro, eu administro a casa e treino naginata, uma arma de lâmina curva. Mulher de samurai também sabe se defender.

Meu quimono tem camadas. Meu penteado leva horas. Minha cerimônia do chá, mais ainda. Aqui, paciência é poder.

E daqui a três anos, uma mulher vai inventar o kabuki, o teatro japonês de drama, dança e música que existe até hoje.

1650

A regra é clara: se não tem drama, não é Barroco. Na pintura, na música, na roupa e no penteado. Tudo é excesso. Tudo é proposital.

Rembrandt pinta luz e sombra como ninguém, o tal do chiaroscuro, a arte de iluminar só metade do rosto e deixar a outra no mistério. Vermeer tem 18 anos e em breve vai pintar a Moça com Brinco de Pérola, que vão chamar de “Mona Lisa do Norte”.

Meu vestido é puro veludo, bordado e pérolas. Conforto? Ninguém falava nisso. O que importava era impressionar.

1789

Peruca empoada, vestido de seda, espartilho apertado. Sou a aristocracia francesa no pior momento possível para ser aristocracia francesa.

O povo não tem pão. A rainha supostamente disse “que comam brioches”, mas provavelmente nunca disse isso. Não importa. Em 14 de julho, a Bastilha caiu. E com ela, séculos de monarquia absoluta.

1789 mudou tudo. Direitos do cidadão. Fim dos privilégios de nascença. A ideia radical de que o poder vem do povo, não de Deus. Isso aqui vai inspirar revoluções no mundo inteiro, inclusive a independência do Brasil.

Liberté, Égalité, Fraternité.

1810

Na Inglaterra Regencial, uma mulher tem basicamente três opções: casar bem, casar mal ou não casar e virar um fardo para família. Eu escolhi uma quarta: escrever sobre isso tudo.

Meus romances falam de amor, sim. Mas sobretudo de dinheiro, classe social e o que acontece com uma mulher que não tem nem um nem outro.

Ano que vem publico meu primeiro livro como “Uma Dama”, porque mulher com nome na capa não pega bem. Daqui a 200 anos vão me adaptar para o cinema umas 47 vezes.

Jane Austen. Orgulho, Preconceito e muita ironia fina.

1870

No Leste, mulher não vota. No Oeste, o Território de Wyoming acaba de dar esse direito, primeiro lugar nos Estados Unidos. Aqui na fronteira, não tem tempo para discutir quem pode o quê. Tem trabalho demais.

A ferrovia transcontinental ficou pronta ano passado. Agora dá para cruzar o país inteiro sem morrer de disenteria numa carroça. Progresso.

Enquanto isso, milhões de bisões estão sendo caçados até quase a extinção e os povos nativos estão sendo expulsos das terras que sempre foram deles.

Este é o “Velho Oeste”.

1890

O Império Britânico domina um quarto do planeta. O sol nunca se põe nos nossos territórios. Mas aqui em Londres, ele também quase nunca aparece, entre a neblina e a fumaça das fábricas, o céu é permanentemente cinza.

A moral vitoriana exige que eu seja bela, recatada e do lar - ou quase isso. Minha gola vai até o queixo, meu espartilho comprime as costelas e meus sentimentos ficam guardados junto com a porcelana boa.

Mas algo está mudando. Desde 1882, mulheres casadas podem ter propriedade no próprio nome.

Sherlock Holmes está nos livros. E um tal de Oscar Wilde acaba de publicar um romance babado e a sociedade londrina não fala de outra coisa.

Chá das cinco? Isso sim é sagrado.

1900

Paris, 1900. A Torre Eiffel tem 11 anos e os parisienses já pararam de odiá-la. O Moulin Rouge tem 11 também e ninguém quer que feche. O metrô acabou de inaugurar. E o cinema? Os irmãos Lumière fizeram a primeira sessão cinco anos atrás, dizem que o público saiu correndo achando que o trem ia sair da tela.

É a Belle Époque, a “bela época”. Paris brilha com luz elétrica, absinto e a certeza de que o progresso nunca vai parar.

Enquanto isso, uma polonesa chamada Marie Curie está num laboratório estudando uma coisa que brilha no escuro. Daqui a três anos ela ganha o Nobel.

Ninguém imagina que em 14 anos uma guerra vai acabar com a festa.

1914

Chamaram de “a guerra que vai acabar com todas as guerras”. Spoiler: não acabou.

Um arquiduque foi assassinado em Sarajevo e, como num efeito dominó de alianças, a Europa inteira entrou em guerra. Trincheiras, metralhadoras, gás mostarda. Dezessete milhões de mortos em quatro anos.

Enquanto os homens iam para o front, as mulheres assumiam as fábricas, os transportes, os hospitais. Fizeram a economia não parar. E quando a guerra acabou, ficou difícil dizer que não mereciam votar.

Quatro impérios caíram: Otomano, Austro-Húngaro, Russo e Alemão. O mapa do mundo foi redesenhado. E a paz que costuraram em Versalhes? Já vinha com a semente da próxima guerra.

1920

A guerra acabou. E a resposta da minha geração? Dançar até o chão.

Cortei o cabelo. Encurtei a saia. Fumo em público. Danço charleston. Chamam a gente de flapper, as jovens que jogaram o manual de boas maneiras no lixo. Não era elogio. A gente adotou.

É a Era do Jazz. Louis Armstrong toca em Nova Orleans, e nos porões de Nova York os speakeasies vendem o álcool que a Proibição tentou acabar. Proibiram a bebida. Não proibiram a festa.

Coco Chanel está libertando as mulheres do espartilho. Fitzgerald acaba de publicar seu primeiro romance. E a bolsa de valores? Só sobe. O que pode dar errado?

Tudo. Em 1929.

1927

“Uma mulher precisa de dinheiro e um quarto só seu para escrever ficção.” Essa frase vai mudar a literatura daqui a dois anos. Por enquanto, acabo de publicar “Ao Farol”.

Sou Virginia Woolf. Escrevo como se pensasse em voz alta, o que a crítica chama de “fluxo de consciência”, uma técnica que abandona a narrativa linear para mergulhar direto na mente dos personagens.

Com meu marido Leonard, fundei a Hogarth Press, nossa própria editora. Liberdade criativa total, sem pedir permissão.

Meu grupo de amigos inclui economistas, pintores e filósofos. Chamam a gente de Bloomsbury Group. Nosso hobby? Reinventar a arte, a economia e os costumes numa sala de estar em Londres.

1930

O sertão é seco, é duro e não perdoa. E é exatamente aqui que eu, Maria Déa, decido largar tudo e entrar para o cangaço. Primeira mulher a fazer isso.

Cangaço: bando armado que percorria o sertão nordestino. Para uns, bandido; para outros, justiceiro. A verdade tá no meio.

Meu companheiro é Lampião, o Rei do Cangaço. Me chamam de Maria Bonita, a Rainha. Meu chapéu de couro tem estrelas e moedas. Minhas cartucheiras não são enfeite.

Benjamin Abrahão registrou a gente em fotos e filme, o principal registro visual do cangaço. Sem ele, esse capítulo da história seria quase invisível.

Em 1938, uma emboscada em Angicos, Sergipe. Nos mataram, nos decapitaram e nossas cabeças ficaram sem enterro por 31 anos. Só foram sepultadas em 1969. É memória para não esquecer.

1932

Primeira mulher a cruzar o Atlântico voando sozinha. 14 horas e 56 minutos de Newfoundland até a Irlanda do Norte. Sem GPS, sem piloto automático. Só eu, o motor e o oceano lá embaixo.

Disseram que aviação não era lugar para mulher. Ajudei a fundar a Ninety-Nines, uma organização de 99 pilotas, porque uma só não bastava. Precisávamos de muitas.

Em 1937, vou tentar dar a volta ao mundo. Meu avião vai desaparecer sobre o Pacífico, perto da Ilha Howland. Quase 90 anos depois, ainda procuram os destroços.

Amelia Earhart. O céu não era o limite. Era o começo.

1940

Nasci em Portugal, cresci no Rio, conquistei Hollywood. Tudo isso com 1,52m de altura. Plataformas ajudam.

Me chamam de Pequena Notável. Meu turbante de frutas virou símbolo do Brasil no mundo, e aí mora a polêmica. No exterior, sou exótica. No Brasil, me acusam de caricatura. Quando voltei pro Rio em 1940, fui vaiada no Cassino da Urca. Doeu tanto que gravei uma resposta: “Disseram que Voltei Americanizada”.

Sou a mulher mais bem paga de Hollywood nos anos 40. Levei o Brasil para o cinema americano. Hollywood fez o remix. Abri porta para toda artista latina que veio depois.

Carmen Miranda. Brasileira demais para Hollywood. Hollywoodiana demais para o Brasil.

1940

Aos 6 anos, poliomielite. Aos 18, um ônibus me partiu a coluna, a pélvis, as costelas e o pé direito. Foram mais de 30 cirurgias ao longo da vida. Comecei a pintar na cama, de espartilho ortopédico, olhando para o espelho que minha mãe colocou no teto.

55 dos meus 143 quadros são autorretratos. Não por vaidade. Porque eu era o tema que eu mais conhecia.

Uso vestidos Tehuana de Oaxaca, flores no cabelo e a sobrancelha como a natureza fez. Padrão europeu de beleza? Não, obrigada.

“Eu nunca pintei sonhos. Pintei minha própria realidade.”

Frida Kahlo. A dor virou tinta. A tinta virou imortalidade.

1943

O mundo está partido em dois. De um lado, fascismo. Do outro, quem tenta pará-lo. No meio, 70 milhões de vidas que não vão sobreviver a essa conta.

É a guerra mais mortal da história. Trincheiras ficaram para trás, agora é bombardeio aéreo, tanques, submarinos e campos de extermínio onde 6 milhões de judeus estão sendo assassinados sistematicamente. O nome disso, o mundo ainda está aprendendo: Holocausto.

Em Stalingrado, o exército soviético acaba de virar o jogo. A maré está mudando. Mas o preço é inimaginável.

Enquanto isso, nas fábricas, nos hospitais e nos campos, mulheres sustentam a máquina de guerra. Victory rolls no cabelo, batom vermelho no rosto e munição na linha de montagem.

O Brasil entrou na guerra ano passado. Logo vai mandar soldados para Itália. A cobra vai fumar.

1949

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.” Essa frase acabou de ser publicada em “O Segundo Sexo”. Albert Camus disse que eu humilhei o homem francês. O Vaticano já colocou na lista de obras proibidas. Bom sinal.

Sou Simone de Beauvoir. Filósofa, escritora, professora. Na agrégation, o exame mais difícil da filosofia francesa, fiquei em segundo lugar, aos 21 anos, a mais jovem a passar. Em primeiro? Sartre. Que tinha reprovado no ano anterior. Ele virou meu companheiro pelos próximos 51 anos. Sem casamento, sem filhos, sem contrato. Tudo por escolha.

Meu escritório é uma mesa no Café de Flore. Meu uniforme é turbante, batom vermelho e ideias que incomodam.

Antes de mim, feminismo era luta por voto. Depois de mim, também virou pergunta filosófica: o que significa ser mulher?

1950

Minha história tem mais de dois mil anos. A versão mais antiga é do século I a.C. Estrabão contou a história de Rhodopis, uma escrava no Egito que perdeu uma sandália. A China já tinha sua versão no século IX: Ye Xian. Perrault acrescentou a fada e o sapatinho de cristal em 1697. Os irmãos Grimm recontaram em 1812, na versão deles, as irmãs cortam os dedos dos pés para caber no sapato.

Agora, em 1950, virei animação. E o mundo inteiro decorou a meia-noite como deadline.

Centenas de versões, dezenas de culturas, milhares de anos. E a moral é sempre a mesma, não subestime a moça que limpa o chão.

1955

Nasci Norma Jeane. Cresci em orfanatos e lares adotivos. Virei a maior estrela de Hollywood. E tudo que querem saber é se o loiro é natural.

Acham que sou só o vestido branco voando. Mas criei minha própria produtora em 1955, quando atrizes não tinham voz no próprio filme. Estudei no Actors Studio com Lee Strasberg. Minha biblioteca pessoal tinha mais de 400 livros. Casei com Arthur Miller, o maior dramaturgo da América. A imprensa tratou como o casamento da beleza com o cérebro. Como se eu não tivesse um.

Sou a maior bilheteria de Hollywood e ganho menos que meus colegas homens. Algumas coisas demoram para mudar.

Marilyn Monroe. Todo mundo viu o brilho. Poucos perguntaram o preço.

1955

Gola alta preta. Café sem açúcar. Boina opcional. Bem-vindo ao underground. Nos chamam de beatniks. O rótulo é deles. A atitude é nossa.

É a Geração Beat — escritores, poetas e músicos que olharam para o sonho americano dos anos 50 e disseram: não, obrigado. Enquanto a América comprava geladeira e assistia TV, a gente lia poesia em porões e ouvia jazz até o sol nascer.

Allen Ginsberg acaba de ler “Uivo” pela primeira vez na Six Gallery em San Francisco. “Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura.” Daqui a dois anos, Kerouac publica “On the Road” e transforma uma viagem de carro numa busca de sentido.

O jazz é a trilha sonora, Charlie Parker, que nos deixou esse ano, Miles Davis e Thelonious Monk. Improvisação pura. Como a vida deveria ser.

1961

Folhado na mão, café sem tampa, vitrine da Tiffany na Quinta Avenida e um vestido preto que vai mudar a moda para sempre. Bom dia, Nova York.

O vestido é de Givenchy. As pérolas, a tiara e os óculos de sol viraram uniforme de elegância. E “Moon River”, de Henry Mancini e Johnny Mercer, ganhou o Oscar e virou trilha sonora de um momento que precisa de delicadeza.

Audrey Hepburn transformou Holly Golightly em um dos ícones mais elegantes do cinema. O curioso? Truman Capote queria Marilyn Monroe no papel. Hollywood escolheu Audrey. E acertou.

Bonequinha de Luxo. A história de uma mulher que fugia de tudo, até o dia que percebeu que pertencer a alguém não é uma prisão. Às vezes é a liberdade.

1965

Uma lata de sopa é arte? Uma caixa de sabão é arte? Um retrato repetido em cores diferentes é arte? Andy Warhol respondeu que sim. E quem discordar, que discuta com o museu.

Pop Art: pegar o que é popular, propaganda, produto, celebridade, e pendurar na parede de uma galeria. Em 1917, Duchamp apresentou um urinol como obra de arte. Warhol foi além, colocou o supermercado inteiro.

Filho de imigrantes rusinos de Pittsburgh, montou a Factory em Nova York, metade ateliê e metade festa. Lá dentro, artistas, músicos, drag queens e o Velvet Underground dividem o mesmo espaço.

Daqui a três anos ele vai dizer: “No futuro, todo mundo vai ser famoso por 15 minutos.” Parecia exagero. Hoje é quinta-feira no Instagram.

1966

Até ontem, modelo era curva. Hoje, modelo sou eu: Twiggy. Magra, andrógina e com um corte de cabelo tão curto que escandalizou quem achava que feminilidade se media em centímetros de cabelo. O Daily Express me chamou de “O Rosto de 1966”.

É a era Mod, abreviação de Modernist. Londres é o centro do mundo. Mary Quant cortou a saia até o meio da coxa e chamou de minissaia. A Igreja odiou. As mulheres adoraram.

O visual? Linhas retas, estampas geométricas e cores vibrantes. Sem babados, sem camadas, sem complicação. Simples e gráfico. Os cílios? Desenhados à mão, três camadas em cima e pintados embaixo. Mais arquitetura do que maquiagem.

Enquanto isso, os Beatles tocam “Revolver” no rádio.

1967

A geração dos nossos pais construiu bombas atômicas e mandou nossos irmãos pro Vietnã. Nossa resposta? Flores. No cabelo, na roupa, na boca de um rifle.

É o Verão do Amor. Cem mil jovens vieram para Haight-Ashbury, em San Francisco, sem plano, sem dinheiro e sem a menor vontade de voltar para o escritório. Chamam a gente de hippie.

Make love, not war. Três palavras que pareciam ingênuas, até você perceber que meio milhão de soldados estavam morrendo numa guerra que ninguém sabia explicar por quê.

Daqui a dois anos, 400 mil pessoas vão se juntar numa fazenda em Woodstock. Hendrix vai tocar o hino americano numa guitarra distorcida. E ninguém vai esquecer.

1968

O Brasil vive uma ditadura militar. A censura corta músicas, filmes e jornais. E é nesse exato momento que um grupo de artistas, muitos deles baianos, decide responder com uma arma perigosa, a criatividade.

Tropicália. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Torquato Neto, Os Mutantes — com uma jovem Rita Lee — e três mulheres que marcaram o movimento: Gal Costa, a voz mais poderosa, Nara Leão, que largou o posto de musa da bossa nova para abraçar a revolução, e a própria Rita, futura rainha do rock brasileiro.

Misturaram tudo o que mandavam não misturar, guitarra elétrica com berimbau, samba com rock, pop com poesia de vanguarda.

O nome veio de uma obra do artista plástico Hélio Oiticica. O movimento durou pouco mais de um ano. Mas mudou para sempre a música brasileira.

No fim de 1968, o regime endurece com o AI-5. Caetano e Gil são presos e depois exilados em Londres. Você pode prender o artista. A ideia, não.

1973

Glitter no rosto, plataforma no pé e a pergunta que incomoda, isso é roupa de homem ou de mulher? Resposta certa, que diferença faz?

É o Glam Rock. David Bowie criou Ziggy Stardust, um alienígena andrógino de cabelo laranja, e mostrou que identidade pode ser performance.

Elton John transforma o piano em espetáculo.

Num mundo que ainda criminaliza ser quem você é, subir num palco de salto, maquiagem e lantejoulas não é só moda. É manifesto.

O glam durou pouco, mas plantou uma semente, punk, new wave, new romantic e tudo que veio depois bebeu dessa fonte de purpurina.

1978

No meu aniversário, me fotografaram montada num cavalo branco dentro do Studio 54. A imagem rodou o mundo. Não foi planejada para ser símbolo de nada, mas virou. Sou Bianca Jagger, e aqui dentro a regra é simples: ou você é espetáculo, ou você é plateia.

O Studio 54 é o epicentro da disco, e a disco nasceu nos clubes negros, latinos e gays que a sociedade fingia não ver, antes de conquistar o mundo. Donna Summer reina como a Rainha do gênero. Grace Jones transforma androginia em arma. Aqui, mulher não é enfeite na pista. Mulher é a pista.

Mas a festa tem prazo. Em 1980, os donos vão presos por sonegação. Logo depois, a epidemia de AIDS vai devastar exatamente a comunidade que criou tudo isso. A música que parecia eterna vira lamento.

Studio 54. Durou 33 meses. Virou lenda porque morreu no auge, antes que o mundo lá fora cobrasse a conta.

1980

Não sei tocar três acordes. Toco dois e formo uma banda. Essa foi a filosofia que o punk gritou para o mundo, você não precisa de permissão, de técnica ou de gravadora. Precisa de raiva e de algo para dizer.

O punk explodiu em Londres e Nova York nos anos 70, contra o rock pomposo, contra o desemprego, contra a Rainha, contra tudo. Os Sex Pistols já se separaram, mas a semente germinou, agora o som está se ramificando em pós-punk, new wave e hardcore. Morto? Não. Se multiplicando.

E as mulheres? Pela primeira vez no rock, não eram só namoradas do guitarrista. Siouxsie Sioux, as Slits, Poly Styrene do X-Ray Spex, Debbie Harry abrindo caminho no CBGB. Subiam no palco com a mesma fúria que os homens, e às vezes com mais.

Punk não era um som. Era uma permissão, a de fazer, mesmo sem saber como.

1983

Tem uma emissora nova que só toca videoclipe 24 horas por dia. Chama MTV. E ela acabou de mudar uma regra básica da música, agora não basta soar bem. Tem que parecer bem.

É a era New Wave. Sintetizador no lugar da guitarra, ombreira no lugar da delicadeza, cabelo desafiando a gravidade e cor neon em tudo. Se o punk era cru e cinza, o new wave é colorido, eletrônico e descaradamente artificial, de propósito.

E as mulheres dominam a cena, Annie Lennox do Eurythmics, de terno e cabelo raspado, confunde e fascina. Debbie Harry mistura new wave e rap. Cyndi Lauper transforma esquisitice em hino. E uma certa Madonna acabou de lançar seu primeiro disco, o mundo ainda não sabe o que vem por aí.

A imagem virou tão importante quanto o som. E nunca mais deixou de ser.

1984

Faz 20 anos que o Brasil vive sob ditadura militar. Faz 20 anos que ninguém vota para presidente. E agora, milhões de pessoas estão na rua pedindo uma coisa só, o direito de escolher quem governa. É o movimento Diretas Já.

Comício no Pacaembu, na Candelária, na Praça da Sé. Mais de um milhão de pessoas numa única praça. Rosto pintado de verde e amarelo, não pelo futebol, mas pela democracia. Político, artista, operário, estudante, dona de casa: todo mundo no mesmo grito.

A emenda que devolveria o voto direto foi derrotada no Congresso por poucos votos. Doeu. Mas o movimento plantou algo que não dava mais para arrancar, a certeza de que o povo tinha acordado.

Em 1985, a ditadura cai. Em 1989, finalmente votamos para presidente de novo. Hoje, décadas depois, a lição continua a mesma: democracia não é garantida. É conquistada todo dia. E quem esquece como perdeu, corre o risco de perder de novo.

1990

O Muro de Berlim acabou de cair. A Guerra Fria está terminando. Dizem que é o "fim da história", que com a queda do comunismo, a democracia liberal venceu de vez e o futuro só tende a melhorar. Mas nem todo mundo está comprando esse otimismo.

Porque para geração que herdou esse mundo, a chamada Geração X, a promessa não bate com a realidade. Emprego instável, futuro incerto, e a sensação de crescer no meio de um discurso de felicidade que ninguém sentia de verdade. Lá da terra da chuva, Seattle, veio uma resposta: o grunge.

Camisa de flanela, coturno surrado, cabelo bagunçado. Som cru, honesto, sem brilho e sem desculpas.

O mundo dizia que era para comemorar. O grunge respondeu: e se a gente não estiver feliz? Foi a trilha sonora de uma geração que se recusou a fingir, com direito a Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden.

1995

A internet comercial chega ao Brasil. Para encontrar qualquer coisa na rede, a gente digita numa caixa de busca chamada Cadê?, sim, esse é o nome. Depois vem o Google. Hoje, a gente pergunta para uma IA. Mas neste ano, "ficar online" significa ouvir o barulho do modem discado e rezar para ninguém atender o telefone.

E enquanto isso, a Bahia vive o auge de um ritmo feito para dançar até cair: o Axé Music.

Criado nos trios elétricos do carnaval de Salvador, o axé mistura frevo, samba-reggae, maracatu e música afro-baiana. O nome vem do iorubá: "axé" é energia vital, a mesma palavra do candomblé. É a Bahia pulsando no rádio do país inteiro.

E as mulheres comandam o microfone, time de peso com Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Margareth Menezes.

O mundo se conecta por cabo. O Brasil se conecta pelo suor da pista.

1997

Uma ovelha chamada Dolly acaba de ser revelada ao mundo, o primeiro mamífero clonado da história. Um computador derrotou o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, a primeira vez que uma máquina venceu a mente humana no tabuleiro. E o mundo inteiro parou para chorar a morte de Lady Di num acidente de carro em Paris.

Enquanto isso, duas palavrinhas estavam na boca das meninas: Girl Power. E elas vêm de cinco britânicas que transformaram amizade feminina em império, as Spice Girls.

"Wannabe" é a música mais tocada do mundo. O recado é simples, se você quer ser meu namorado, primeiro tem que se dar bem com as minhas amigas. Raramente um grupo pop tinha colocado a lealdade entre mulheres acima da conquista de um homem, e nunca de forma tão global.

Cada uma com seu estilo e seu apelido. A ideia por trás? Que tem espaço para todo tipo de menina, a esportista, a durona, a fofa, a extravagante. Não precisa escolher um único modelo de ser mulher.

Os críticos torceram o nariz, chamaram de pop descartável. Mas uma geração inteira de meninas aprendeu a primeira lição de feminismo dançando. E isso não é pouca coisa.

2000

O mundo passou meses apavorado com o "bug do milênio" — o medo de que, na virada para 2000, todos os computadores do planeta entendessem o ano "00" como 1900 e o mundo entrasse em colapso. Aviões cairiam, bancos quebrariam, o caos. Chegou a meia-noite e... nada aconteceu. O maior anticlímax da história.

Bem-vinda ao Y2K, a estética do futuro que a gente achava que ia viver. Metalizado, translúcido, brilho cromado, óculos minúsculos coloridos e a certeza de que o amanhã seria prateado e digital.

A internet vira febre. Toda empresa que terminava em ".com" valia milhões — até março, quando a bolha estoura e leva fortunas junto. O Napster faz a indústria da música tremer: pela primeira vez, baixar uma música é de graça (e ilegal). E o futuro, finalmente, parece ter chegado.

2007

Em junho, um homem de gola rulê sobe num palco na Califórnia e apresenta um telefone sem teclado, só com uma tela de vidro. Chama iPhone. Ninguém imagina que aquele objeto vai redesenhar a forma como o mundo inteiro vive. O futuro acabou de caber no bolso.

E a gente está cada vez mais conectado. No Brasil, todo mundo está no Orkut, colecionando scraps, depoimentos e participando de comunidades como "eu odeio acordar cedo". O Facebook ainda é mais coisa de gringo, o Twitter está engatinhando e o YouTube está pegando... As redes sociais estão começando a mudar tudo, e a gente nem percebe direito.

A trilha sonora desse ano tem uma voz inconfundível: Amy Winehouse. Delineado preto puxado, cabelo armado num coque altíssimo e um timbre que parece ter saído dos anos 60, mas com uma dor que é absolutamente atual. "Rehab" toca em todo lugar, uma música sobre se recusar a buscar ajuda, cantada por alguém que precisava desesperadamente dela.

Amy mistura soul, jazz e R&B com honestidade e a imprensa transforma o sofrimento dela em espetáculo. Em 2011, entra para o "clube dos 27", músicos geniais mortos nessa idade.

2020

Pela primeira vez nesta linha do tempo de 30 mil anos, meu rosto aparece coberto. Uma máscara. Porque em 2020, o mundo inteiro parou ao mesmo tempo — algo que nunca tinha acontecido na história da humanidade.

Um vírus chamado SARS-CoV-2 transformou gestos banais em risco: apertar a mão, abraçar, respirar perto de alguém. Cidades inteiras viraram fantasmas. Hospitais lotaram. E a palavra "lockdown" entrou no vocabulário de todo mundo, em todas as línguas.

A casa virou escritório, escola, academia e cinema. O trabalho virou videochamada. A gente aprendeu a viver pela tela, a aplaudir pela janela e a sentir saudade de coisas que antes eram automáticas. O mundo descobriu, na marra, o que importava de verdade.

Foram milhões de vidas perdidas. Mas em tempo recorde, a ciência criou vacinas que salvaram o planeta. No fim, a pandemia provou as duas coisas ao mesmo tempo: o quanto somos frágeis, e o quanto somos capazes.

2026

Chegamos ao presente. Depois de 30 mil anos — da caverna ao ano em que tivemos a primeira mulher contornando a Lua, do urucum ao delineado, da pedra lascada ao smartphone — aqui estou eu. Hoje.

Trabalho com algo que há poucos anos era ficção científica: inteligência artificial. A mesma tecnologia que gerou cada uma das fotos dessa coleção. Eu pedi, descrevi, ajustei, e a IA me vestiu de faraó, de rainha, de revolucionária, de diva. Como uma cabine de fotos que viaja no tempo.

É a primeira vez na história que uma pessoa comum pode se imaginar em qualquer época, em qualquer papel, com alguns comandos de texto. Se as redes sociais deram a qualquer um o poder de se comunicar com o mundo, a IA está dando o poder de criar. A ferramenta que antes era de poucos hoje cabe na palma da mão de qualquer um, pelo menos até agora. Mas essa é outra história.

Vivemos um mundo incerto. Mas, apesar de todas as dificuldades e atrocidades diárias, uma coisa é certa: 2026 ainda é o melhor tempo da história para se ser mulher.

2119

Imagine alguém daqui a cem anos olhando para trás, tentando entender quem nós fomos.

No romance "O Que Podemos Saber", de Ian McEwan, é exatamente isso que acontece. Estamos em 2119. O mar subiu, engoliu cidades, partiu a Inglaterra num arquipélago. E os sobreviventes têm um nome para a época em que vivemos agora: a Derangement, o Desarranjo. O período em que a humanidade sabia exatamente o que estava acontecendo com o planeta. E mesmo assim não agiu.

Nesse futuro, graças à tecnologia, o que produzimos como conteúdo sobreviveu. Cada e-mail, cada mensagem, cada foto, cada busca. Não falta informação sobre nós. Mas montar o quebra-cabeça do que realmente aconteceu é quase impossível. Porque ter acesso à informação não é o mesmo que saber a verdade.

Talvez seja esse o paradoxo do nosso tempo também. A verdade deveria ser aquilo que corresponde à realidade. Mas qual realidade? A confiança, que deveria nos ajudar a separar conhecimento de ruído, se corrói diariamente com a ajuda da tecnologia e do ódio. E o resultado é uma sociedade cada vez mais fragmentada, com menos capacidade de se unir para enfrentar os desafios que são de todos.

Por isso, neste post, escolhi imaginar dois futuros possíveis: o de uma sobrevivente do Desarranjo, e o do futuro tecnológico e brilhante que tantos carregam no imaginário mas que me parece cada vez mais difícil de alcançá-lo.

Sobrevivente do Desarranjo
Futuro tecnológico