She lives in the twilight of a fragile balance. The woman I speak of is not one for many words; her conversations are silent monologues where she tries to convince herself that she can endure another day. She has a condition—not the kind easily explained in casual weather talks or the cold receptions of medical offices. She lives a life in which pain is a constant, intrusive, almost intimate companion.
It’s not just physical pain, but a sharp sensation that slices through her soul whenever the world around her shakes a bit more strongly. Laughing is a risk; crying, a disaster. Pleasure and pain dance together in a macabre ballet, leaving her exhausted. Each laugh is followed by a fatigue that weighs more than the air she breathes. Heat suffocates her, cold stabs her, and even the harmless buzz of a machine can turn into a terrifying roar.
In the solitude of her home, she avoids extremes. The barely open windows, curtains that filter the outside world, transforming it into soft shadows that hardly disturb. The TV is always off, so the tragedies and triumphs of the world don’t disturb her with their emotional peaks. She shies away from music that could carve roller coasters in her heart.
The possibility of a washing machine breaking is not a minor inconvenience, it’s a threat. A lost bird entering her room is like a hurricane invading her sanctuary of calm. And the pain of others? Oh, the pain of others pierces her as if it were her own, an involuntary and torturous empathy that does not recognize boundaries between her skin and the world.
She loses herself in thoughts, imagining a universe where every little fluctuation wouldn’t be a potential calamity. She imagines herself free, without the invisible shackles that pain weaves around her body and mind. Sometimes, in the silence between one sigh and the next, she almost feels like this. Almost.
But then, she always returns, always returns, to the reality that awaits her with the certainty of an old friend. And in this monotonous routine, this sea of forced tranquility, she finds a strange kind of beauty. A life without highs and lows is also a life without falls. Perhaps, in her quietness, she is telling us something profound about existence. Something about the beauty of not feeling too much, whether joy or sorrow, because at each extreme there is a price to pay.
And perhaps, only those who live in the eye of the storm truly understand the value of calm.
Antes dos 38
Ela vive na penumbra de um equilíbrio frágil. A mulher de quem falo não é de muitas palavras; suas conversas são monólogos silenciosos onde ela mesma tenta se convencer de que pode suportar no dia seguinte. Tem uma condição — não daquelas que se explica facilmente em conversas casuais sobre o clima ou nas recepções frias de consultórios médicos. Ela vive uma vida na qual a dor é uma companhia constante, intrusiva, quase íntima.
Não é apenas uma dor física, mas uma sensação aguda que lhe corta a alma sempre que o mundo ao redor oscila um pouco mais forte. Rir é um risco; chorar, um desastre. O prazer e a dor dançam juntos em um balé macabro, deixando-a exausta. Cada gargalhada é seguida por um cansaço que pesa mais do que o ar que ela respira. O calor a sufoca, o frio a apunhala, e até o zumbido inofensivo de uma máquina pode se transformar num rugido amedrontador.
Na solidão de sua casa, ela evita os extremos. As janelas pouco abertas, cortinas que filtram o mundo lá fora, transformando-o em sombras suaves que quase não perturbam. A TV está sempre desligada, para que as tragédias e triunfos do mundo não a perturbem com seus picos emocionais. Ela se esquiva de músicas que poderiam esculpir montanhas-russas em seu coração.
A possibilidade de uma máquina de lavar quebrar não é um pequeno inconveniente, é uma ameaça. Um pássaro perdido que entra em sua sala é como um furacão invadindo seu santuário de calma. E a dor dos outros? Ah, a dor dos outros a transpassa como se fosse sua, uma empatia involuntária e torturante que não reconhece fronteiras entre sua pele e o mundo.
Ela se perde em pensamentos, imaginando um universo onde cada pequena flutuação não seria uma potencial calamidade. Imagina-se livre, sem as amarras invisíveis que a dor tece ao redor de seu corpo e mente. Às vezes, no silêncio entre um suspiro e o próximo, ela quase consegue se sentir assim. Quase.
Mas então, ela retorna, sempre retorna, à realidade que a espera com a certeza de um velho amigo. E nessa rotina monótona, nesse mar de tranquilidade forçada, ela encontra uma forma estranha de beleza. Uma vida sem altos e baixos é também uma vida sem quedas. Talvez, em sua quietude, ela esteja nos dizendo algo profundo sobre a existência. Algo sobre a beleza do não sentir demais, seja alegria ou tristeza, porque em cada extremo há um preço a pagar.
E quem sabe, apenas quem vive no olho do furacão entende verdadeiramente o valor da calmaria.